futuro, minha história

Me assaltei a mim mesma

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Essa semana eu assaltei a Alice do futuro. Mais uma vez, sim. É que é a Alice velha, a Alice aposentada, ela tá longe. Com ela eu não preciso me preocupar agora, com 26 anos, né? Nem penso nessa louca hoje. Imagina eu, velha. Jesus!

É que eu tinha uma previdência. Uma previdência que JÁ tinha sido assaltada anteriormente, mas eu não desisto nunca, e continuei colocando 100 reaizinhos nela por mês, toda empenhada. E lá estavam eles, a alguns dias de carência de distância, meus mil e tantos reais que salvariam minhas economias, finalmente me tirando do maldito círculo vicioso do cheque especial (e funcionou, fiquei muito feliz, de verdade!). Obrigada, Alice do futuro.

Penso no dia em que eu, quando já for uma Aliçona, velha e mais irresponsável, viverei minha vida de socialite falida graças a esses mil reais retirados por mim hoje. Porque temos que nos preparar para os dias vindouros, né. Magina, não fazer aposentadoria e nem planos, aí  já é demais.

Alice do futuro acordará um pouco zonza em seu apartamento de cobertura herdado por alguma tia avó desconhecidíssima, tocará uma canção de amor em homenagem a seu ex-marido em seu piano branco (é, porque a essa altura, namorado já vai ter me abandonado no sétimo casaco de faux fur que eu comprar no cheque especial). Tomará um leite com muita água numa taça de champagne e pensará:

– O que vou almoçar hoje?

O que você não imagina, ingênuo leitor, é que Alice do futuro não terá comida na geladeira, mas terá muita ideia na cabeça. Ela tem cultura, ela tem graça, ela tem glamour. Ela tem um chapéu comprado num mercado de pulgas parisiense em 2010 que lhe passa uma impressão de colunista cool da Folha. Ela vai bater na porta da casa mais legal que encontrar e dizer:

-Muito prazer, Alice Despair. Sou jornalista e escrevo em um site sobre homie cookierie. Sua casa foi eleita por nós para figurar em nosso site. A gente almoça o que você acabou de fazer, dá nota e faz a crítica.

-Blog sobre o que?

-Homiecsdfhsdguiekrie. Não é todo mundo que conhece esse termo, eu entendo, é um hobby um pouco estrito a pessoas mais…

-É CLARO QUE CONHEÇO. Claro que conheço, acho que saiu naquele canal, aquele… semana passada, né?

-Isso mesmo. – sorri penalizada Alice Desespero, com os dentes amarelados pela vida.

-Puxa, mas me sinto tão honrada!!!  Posso ligar para os meus amigos e contar?

-Não, amor, o segredo do homie cookijiejrie é manter segredo. É uma coisa entre cozinheiro e crítico. – Alice do futuro pisca. A plástica malsucedida feita em 2045 trava a piscadela no meio, mas a imagem de Alice Desespero é pura confiança e afeto.

-Espero que você goste de arroz com feijãozinho, salada de tomate e bife acebolado.

A essa altura, Alice do futuro já está sentada à mesa, de garfo e faca na mão. Esperando sua próxima refeição.

E viva a Coca Cola 2 litros de casa de família!

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emagrecer, errei de novo, junk food, minha história

Salada

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Parei, pensei e não lembro quando foi que comi salada pela última vez. Deve fazer mais de 10 dias. Veja bem, não estou me congratulando com isso. Acho que as pessoas têm que comer salada, é tipo pagar imposto, foi o que aprendi. É ruim, te deixa triste, mas faz parte da vida.

É que hoje, com esse negócio de morar sozinha, quando compro um pacote de alface, ele fica preto e com aquela aguinha nojenta daí 1 semana. Não tenho tempo pra ficar comendo alface, ele exige demais de mim, também. Verdura é tão carente, não é igual carne que você congela e ela fica lá, te esperando, quietinha. Não, não confio em salada.

Não me levem a mal, eu não tenho nada contra quem gosta de salada. Tenho até uns amigos que gostam de salada. E fico aqui sonhando com o dia em que terei a mente mais aberta, quando estarei casada, servindo saladas para meu esposo. Daquelas coloridas, com palmito, bem ricas, mesmo. Sem croutons, que crouton é roubar no jogo. Sem batata palha também, que batata palha é coisa de sanduíche.

Uhm, sanduíche.

Beijos sabor chuchu,

Alice Desespero*

 

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família, fazendo em casa, minha história

Vim aqui pra casa dos meus pais

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Porque de vez em quando me questiono POR QUE? DE ONDE TIREI ESSA IDEIA DE SAIR DE CASA? Sério, trocar bolo feito na hora, barulho de panela de pressão em casa, aquela mimação toda, por trânsito, perrengue e deixa-comigo-que-resolvo-todas-as-minhas-contas, isso é coisa de gente maluca. Logo eu, que nem quis sair de casa por problemas de vida louquismo. Logo eu, que acho que ato de rebeldia é comer sobremesa antes do jantar ou fazer brigadeiro e não enrolar.

Aí chego aqui e minha mãe fez bolo embrulhado (DEVO LEMBRÁ-LOS QUE BOLO EMBRULHADO É UM PRAZER ESQUECIDO DA BOA GASTRONOMIA), bolota de frango, strogonoff, batata frita, pipoca, pão feito em casa, daqueles quentes com manteiguinha derretida em cima. E me oferece tudo, toda querida. Como, por Deus, vou negar? Aí depois ela fica por aí corrigindo minha postura.

“Você anda muito empinada pra trás, Alice! Que coisa pavorosa!” Não, mãe, não é empinamento, é engordamento.

Aí vem meu pai, que ainda não superou o fato de eu ter sobrevivido intacta a todas as bolhas. Digo, as bolhas do pontocom, dos blogs de moda, das iogurterias. Digo, sobrevivi porque nunca tive coragem de abrir meu próprio negócio. Acho que ele lê muita Veja, fica vendo todas aquelas matérias da geração Y, dos multimilionários jovens da internet, e chora todas as noites perguntando onde foi que errou. Eu também, papai, eu também.

“Mas a verdade é que você e sua mãe não são muito boas com esse negócio de ganhar dinheiro.” – disse ele, ontem, enquanto tomávamos café.

“Mas também não precisa fazer essa cara… vocês são ótimas pra gastar dinheiro!” – ele completa, tentando consertar.

Boa, pai. Pronto, enquanto escrevo aqui, ele acabou de trazer um Ferrero Rocher pra pedir desculpa. Liga não, tô feliz.

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banco, complexo, minha história

Um chiclete pro mendigo

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O mendigo teve as manha de falar que queria dinheiro era pro goró, mesmo. E eu, admirada de sua sinceridade, quase respondi também sincera “mas, mendigo, você deve ter mais dinheiro efetivo que eu, já que meu dinheiro neste momento é negativo, o que, se aprendi certo nas aulas de álgebra, era menos que nada”.

Mas aí vai que ele fica com pena, né? Dei um chiclete pra ele e cada um seguiu o seu caminho.

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erros, minha história

Paguei o pato.

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Tem esse negócio de valor percebido e valor real, né? De uns tempos pra cá venho tentando lidar melhor com isso. Como uma vez, que eu precisava comprar um regador. Digo, se fosse hoje, talvez eu escolhesse continuar regando minhas flores de supermercado  com meus copos de requeijão, mas é que a Alice do passado era coisa de doido. Fui até a Emme, loja linda cujas roupas duram cerca de duas horas de uso mas isso não vem ao caso se você está em busca de uma roupa de uma noite só ou de um regador estiloso, e vi que lá havia um regador.

Digo, era um regador em forma de pato.

E lá, no meio daquelas peças de roupa descoladas, da vitrine bonitona e das músicas hipsters, ele compunha um visual tão lindo, que quase grasnei pra ele em êxtase.

QUÉ, ele gritou de um canto.

QUANTO, gritei eu do outro.

CINQUENTA REAIS, disse a vendedora.

50 reais num regador em forma de pato mega estiloso vale, né?

Digo, era um regador em forma de pato.

Levei pra casa, desembrulhei, botei na estante e adorei. À noite, minha mãe faz o que ela faz de melhor:

-Que lindo esse patinho de plástico. Comprou na 25?

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minha história, urgências

Vou ser madrinha!

É esse sábado. E tinha esquecido completamente. Digo, não completamente. Sei que vou com meu Kate Spade que comprei há quase um ano e ainda não usei, na fase em que eu ainda era louca etc.* Sei que vou com o sapato vermelho e dourado da Prego que comprei faz 1 mês especialmente para a data. Já estou com manicure marcada. Já sei que cabelo e maquiagem eu faço em casa (lição aprendida depois de muitas experiências de quase morte que sempre terminavam com a cena “eu chorando e tirando laquê no chuveiro quinze minutos antes de sair para a festa”).

O que eu tinha esquecido era só uma coisa básica: QUE TAMBÉM PRECISO LEVAR UM PRESENTE.

Por um tempo pelejei com meus pensamentos, aqui comigo. Acompanha meu raciocínio: primeiro que os noivos afrontaram minha independência entregando meu convite não como Senhora Alice, mas como parte da família Desespero como um todo. Como se eu morasse com meus pais, vê o ultraje. Como se eu fosse uma pessoa dependente financeiramente que não soubesse se organizar sozinha.

Ora.

Portanto, nada mais normal que o presente também ser entregue da família Desespero como um todo, pronto. Mas aí a consciência pesou. Madrinha, né, gente? Sou a prima que mora em São Paulo, a prima descolada que vai ser madrinha de Kate Spade. Vou atravessar aquele corredor da igreja com um vestido que deve ter custado todos os arranjos de flores do casamento juntos e vou ter certeza que todo mundo vai estar falando entre si, cochichando, uns para os outros: “aquela ali, ó”, “ela? NEM PRA COMPRAR UM CONJUNTO PARA MOLHOS**”.

Não dá. Aí pensei numa estratégia meio fada madrinha da Bela Adormecida. Chego no casamento e digo que estou dando ao casal o dom da beleza ou da música e este é meu presente. Algo meio:

Não sei porque, achei que essa não ia colar. Comprei um George Foreman em promoção e pronto.

George Foreman Preaching George Foreman Preaching George Foreman Preaching George Foreman Preaching

Amém!

*o kate spade é lindo e juro que depois que ele assenta direitinho nos meus sete quilos a mais ninguém é capaz de notar que demoro cerca de 48 minutos para conseguir fechar o zíper.

**qual é o problema dessas noivas desenfreadas ao fazer suas listas? Pedir conjunto de lasanha, conjunto de pizza, conjunto para molhos, conjunto de frios, conjunto de azeitona preta descaroçada manca? Quero dizer, quantas lasanhas você faz por ano? Quantos molhos você faz por dia num dia normal? Deve ser coisa de quem nunca morou sozinho e usou uma só panela pra guardar tudo isso junto, sem preconceitos. E juro que encontrei na lista um escorredor de louça de 166 reais. Se alguém gastasse 166 reais para me dar escorredor de louça quando poderia estar comprando qualquer outra coisa, ia escorrer umas louças na cabeça dessa louca. Só se se tratar de alguma espécie de eletrodoméstico nova que seca a louça automaticamente e eu nem sei. E ainda faz lasanha, pra usar com o conjunto de lasanha novo. 

Querendo pegar o buquê,

Alice Desespero*

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fases do luto, minha história

A balança, meu extrato e eu: uma tragédia em 5 atos

9 9 9

Quando eu descobri que a balança estava balançando e meu extrato estava gritando, demorou pra ficha cair (enquanto isso, os pagamentos em débito automático e minha barriga caíam que era uma beleza). Digo que passei pelas 5 fases do luto e cada uma delas vinha acompanhada de uma atitude bastante sensata e compreensível.

A negação:

Mas toda farmácia que eu vou está com a balança desregulada. Isso e o site do banco que está com uma cor esquisita, dizendo que tenho menos do que tenho. Esquisito isso aí. AMOR, TEM UM HACKER INVADINDO MEUS DADOS.

A raiva:

Por que eu por que comigo por que agoraaaaa? Eu odeio essa sociedade que me obriga a pagar pela minha própria comida gorda. Sociedade gorda. Banhuda. Nem pra fazer uma salada gostosa por 1 real.  #brasilvergonha #imaginanacopa

A negociação:

Então eu só vou comer esse hamburger gourmet às sextas feiras em que eu estiver estressada.

A depressão:

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH EU SOU HORRÍVEL MINHA VIDA É HORRÍVEL VOU MORREEEEEEEER ANTES DOS TRINTA SEM TER ME CASADOOOOOOOOOOOOOOOO oba brigadeiro

A aceitação:

Mãe, lembra daquela proposta de você voltar a pagar terapia pra mim?

 

Beijos de luz,

Alice Desespero*

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